segunda-feira, 23 de março de 2015

MILAGRES - KRISHNAMURTI

Milagres

 Pastores. Milagreiros. Padres. Santos. Curandeiros.


Se se perdessem todos os livros sacros da humanidade, e só se salvasse O Sermão da      Montanha, nada estaria perdido. 
Mahatma Gandhi
¨Ninguém pode servir a dois senhores; pois ou há de aborrecer a um e amar ao outro, ou há de unir-se a um e desprezar ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos da vossa vida pelo que haveis de comer ou beber, nem do vosso corpo pelo que haveis de vestir; não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celestial as alimenta; não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um cúbito à sua estatura? Por que andais ansiosos pelo que haveis de vestir? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Se Deus, pois, assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Assim não andeis ansiosos, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir? (Pois os gentios é que procuram todas estas coisas); porque vosso Pai celestial sabe que precisais de todas elas. Mas buscai primeiramente o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.¨ 
Estas são as palavras de um homem sábio, os dizeres de um poeta místico, que se utiliza das mais lindas imagens e profunda poesia para expressar aquilo que excede os conceitos, e o que se insinua e se oculta nas palavras. 
Este belo homem, mensagem do amor encarnado, nos convida a entrar no Reino dos Céus, na morada do Pai Eterno, mediante o auto-conhecimento, porque este Reino está dentro de cada um. Ele habita no coração dos homens. 
Sendo assim, qualquer um que se intitule seu representante; independentemente do cetro que ostente, das suas suntuosas mansões, das mantas vermelhas ou laranjas, batinas pretas ou violáceas, ternos e gravatas que vistam; assim como solidéus e chapéus de cowboy que porventura os adornem; são intermediários entre mim e mim-mesmo. Um entrave a ser total e cuidadosamente extirpado.
¨O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens.¨  (Atos 17:24-30)
Um homem humilde, comum, filho de carpinteiro, sedento de luz, após dias jejuando na solidão do deserto, enfrenta as grandes tentações e vence a sombra do Homem. O Adão desperto e redivivo, embriagado do Divino, volta nu, vitorioso; e com o coração exposto, traz a mensagem do amor, da libertação, da compaixão e da Vida Eterna.
¨O sábio aponta a lua, o tolo vê o dedo.¨
Os antigos e os contemporâneos que se dizem seus seguidores, ainda limitados pelas estruturas cognitivas do pensamento concreto infantil, incapazes de abstração, aparentemente mais fascinados, interessados e preocupados em disseminar, valorizar e perpetuar o mito de um ser dotado de poderes extraordinários; reduzem o homem Jesus a alguma espécie de bruxo dos contos-de-fadas, ou a algum super-herói infanto-juvenil, que dotado com superpoderes é capaz de andar sobre as águas, curar os paralíticos, os surdos-mudos, os leprosos e os cegos; e ainda, multiplicar os pães, transformar água em vinho, ressuscitar os mortos, e, por fim, ressuscitar-se a si-mesmo.
¨Vi tudo que se faz sob o sol, e eis: Tudo vaidade, e vento que passa.¨  (Eclesiastes)
Não é objetivo deste texto questionar se os milagres ocorreram de fato ou não, ou se Jesus tinha ou não o poder de realizá-los. Muito provavelmente tinha tal poder; mas tal homem, de tal magnitude, e com tamanha sabedoria não estaria além da necessidade de comprovar por tais fenômenos físicos e concretos a sua estatura espiritual? Não seria também, como repetidas vezes disse, o seu maior interesse e missão a cura interior, a cura da alma? A maturidade que alcançou não o permitiria ter outra atitude a não ser a de, compassivamente, elevar os homens ao mesmo patamar de responsabilidade, tomando cada um a sua cruz; e, portanto, seguir o seu próprio caminho.

Quem leu até aqui, veja no vídeo abaixo o que um desses raros sábios movidos a compaixão diz sobre o fenômeno dos milagres.

¨O que é mais importante, curar fisicamente alguém, ou curar psicologicamente? Você não está interessado nisso tudo. Você só está interessado em milagres, que lhes trarão mais dinheiro, entende? Senhor, você vê como tudo isso é triste, como tudo isso é infantil?...Você entende? Está tudo se tornando tão infantil, imaturo...Por que nos tornamos tão infantis sobre todos estes assuntos?...O mundo está caindo aos pedaços...Você está se degenerando...Você é corrupto, está fazendo coisas feias na vida. Mudar isso é o milagre. Não uma pessoa tola fazendo algum tipo de truque. Este é o maior milagre que pode acontecer a um ser humano. Mudar completamente e desabrochar em algo extraordinário... Você quer alguém que faça tudo por você. Ninguém vai ajudá-lo psicologicamente.¨  

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segunda-feira, 16 de março de 2015

A BÍBLIA e as TERRAS

A Bíblia e as Terras

Abujamra re-cita Jomo Kenyatta


https://youtu.be/mgF_qKZVsZ8
¨Quando os missionários chegaram pela primeira vez às nossas terras, eles tinham as bíblias, e nós tínhamos as terras. Cinquenta anos depois, nós tínhamos as bíblias, e eles tinham as terras.¨
Jomo Kenyatta - Primeiro Presidente da República Africana do Kênia
arte: Luis Quiles

Com ou sem religião ainda haveria gente boa fazendo coisas boas e gente má fazendo coisas más. Para gente boa fazer coisas más é preciso religião.
                                  Steven Weinberg

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

Por Quem os Sinos Dobram

For Whom the Bells Tolls

¨Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si-mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, como se fosse o solar dos teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.¨
                                                                                                               John Donne



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A GENTE SE ACOSTUMA

Mas Não Devia 



Eu Sei, Mas Não Devia

Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si-mesma.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

AS CRIANÇAS DA FOME

As Crianças da Fome

¨...Desliga o televisor e tudo volta a ser real...¨


Los Hijos del Hambre No Tienen Mañana
Canteca de Macao

Con la mirada perdía en esos ojos de cuenca vacía
Se me notan las costillas, debo vivir el día a día.

Y tú preocupao por cómo adelgazar,
Pensando todo el día en esos kilitos de más.
Siéntate un ratito y ponte a pensar
En cómo viven y mueren los demás.

Pa' poder vivir debo arriesgarme a morir,
Aún me queda la esperanza de poder seguir aquí.
Navegan mis ilusiones en un frío mar añil,
Escapar de la pobreza, ¡por fin, por fin, por fin!

Y si merece la pena hay cruzar en una patera
Que va a naufragar antes de llegar a gibraltar.

Me asusta la pobreza, vete de aquí.
Nos quitas el trabajo y nos traes de fumar,
Educamos a tus hijos pa que roben el pan,
El día de mañana nos vas a gobernar.

Y apaga el televisor y todo vuelve a ser real,
Las cosas que has visto se te van a olvidar:
Guerras, hambre y precariedad...
¡calla tu conciencia y déjate llevar!...

Entonces se apagan todas las luces del barrio
Y la gente duerme y no piensa
En los que pierden su vida a diario.

Con la mirada perdía en esos ojos de cuencas vacías,
Se me notan las costillas, debo vivir el día a día.