Se se perdessem todos os livros sacros da humanidade, e só se salvasse O Sermão da Montanha, nada estaria perdido.
Mahatma Gandhi
¨Ninguém pode servir a dois senhores; pois ou há de aborrecer a um e amar ao outro, ou há de unir-se a um e desprezar ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos da vossa vida pelo que haveis de comer ou beber, nem do vosso corpo pelo que haveis de vestir; não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celestial as alimenta; não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um cúbito à sua estatura? Por que andais ansiosos pelo que haveis de vestir? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Se Deus, pois, assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Assim não andeis ansiosos, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir? (Pois os gentios é que procuram todas estas coisas); porque vosso Pai celestial sabe que precisais de todas elas. Mas buscai primeiramente o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.¨
Estas são as palavras de um homem sábio, os dizeres de um poeta místico, que se utiliza das mais lindas imagens e profunda poesia para expressar aquilo que excede os conceitos, e o que se insinua e se oculta nas palavras.
Este belo homem, mensagem do amor encarnado, nos convida a entrar no Reino dos Céus, na morada do Pai Eterno, mediante o auto-conhecimento, porque este Reino está dentro de cada um. Ele habita no coração dos homens.
Sendo assim, qualquer um que se intitule seu representante; independentemente do cetro que ostente, das suas suntuosas mansões, das mantas vermelhas ou laranjas, batinas pretas ou violáceas, ternos e gravatas que vistam; assim como solidéus e chapéus de cowboy que porventura os adornem; são intermediários entre mim e mim-mesmo. Um entrave a ser total e cuidadosamente extirpado.
¨O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens.¨ (Atos 17:24-30)
Um homem humilde, comum, filho de carpinteiro, sedento de luz, após dias jejuando na solidão do deserto, enfrenta as grandes tentações e vence a sombra do Homem. O Adão desperto e redivivo, embriagado do Divino, volta nu, vitorioso; e com o coração exposto, traz a mensagem do amor, da libertação, da compaixão e da Vida Eterna. ¨O sábio aponta a lua, o tolo vê o dedo.¨ Os antigos e os contemporâneos que se dizem seus seguidores, ainda limitados pelas estruturas cognitivas do pensamento concreto infantil, incapazes de abstração, aparentemente mais fascinados, interessados e preocupados em disseminar, valorizar e perpetuar o mito de um ser dotado de poderes extraordinários; reduzem o homem Jesus a alguma espécie de bruxo dos contos-de-fadas, ou a algum super-herói infanto-juvenil, que dotado com superpoderes é capaz de andar sobre as águas, curar os paralíticos, os surdos-mudos, os leprosos e os cegos; e ainda, multiplicar os pães, transformar água em vinho, ressuscitar os mortos, e, por fim, ressuscitar-se a si-mesmo. ¨Vi tudo que se faz sob o sol, e eis: Tudo vaidade, e vento que passa.¨ (Eclesiastes) Não é objetivo deste texto questionar se os milagres ocorreram de fato ou não, ou se Jesus tinha ou não o poder de realizá-los. Muito provavelmente tinha tal poder; mas tal homem, de tal magnitude, e com tamanha sabedoria não estaria além da necessidade de comprovar por tais fenômenos físicos e concretos a sua estatura espiritual? Não seria também, como repetidas vezes disse, o seu maior interesse e missão a cura interior, a cura da alma? A maturidade que alcançou não o permitiria ter outra atitude a não ser a de, compassivamente, elevar os homens ao mesmo patamar de responsabilidade, tomando cada um a sua cruz; e, portanto, seguir o seu próprio caminho.
Quem leu até aqui, veja no vídeo abaixo o que um desses raros sábios movidos a compaixão diz sobre o fenômeno dos milagres.
¨O que é mais importante, curar fisicamente alguém, ou curar psicologicamente? Você não está interessado nisso tudo. Você só está interessado em milagres, que lhes trarão mais dinheiro, entende? Senhor, você vê como tudo isso é triste, como tudo isso é infantil?...Você entende? Está tudo se tornando tão infantil, imaturo...Por que nos tornamos tão infantis sobre todos estes assuntos?...O mundo está caindo aos pedaços...Você está se degenerando...Você é corrupto, está fazendo coisas feias na vida. Mudar isso é o milagre. Não uma pessoa tola fazendo algum tipo de truque. Este é o maior milagre que pode acontecer a um ser humano. Mudar completamente e desabrochar em algo extraordinário... Você quer alguém que faça tudo por você. Ninguém vai ajudá-lo psicologicamente.¨
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¨Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si-mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, como se fosse o solar dos teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.¨
Antes de prosseguir no meu caminho E lançar o meu olhar para frente Uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti, Na direção de quem eu fujo. A Ti, das profundezas do meu coração, Tenho dedicado altares festivos, Para que em cada momento Tua voz me possa chamar.
Sobre esses altares está gravada em fogo Esta palavra: ¨ao Deus desconhecido¨ Eu sou teu, embora até o presente Me tenha associado aos sacrílegos. Eu sou teu, não obstante os laços Me puxarem para o abismo. Mesmo querendo fugir Sinto-me forçado a servir-Te.
Eu quero Te conhecer, ó Desconhecido! Tu que me penetras a alma E qual turbilhão invades minha vida. Tu, o Incompreensível, meu Semelhante. Quero Te conhecer e a Ti servir.
Poesia de Friedrich Nietzsche traduzida por Leonardo Boff
O texto em alemão pode ser encontrado em Die schönsten Gedichte von Friedrich Nietzsche, Diogenes Taschenbuch, Zürich 2000, 11-12 ou em F.Nietzsche, Gedichte, Diogenes Verlag, Zurich 1994.
Não
há nada que diferencie tanto a sociedade Ocidental de nossos dias das
sociedades mais antigas da Europa e do Oriente do que o conceito de tempo.
Tanto para os antigos gregos e chineses quanto para os nômades árabes ou para o
peão mexicano de hoje, o tempo é representado pelos processos cíclicos da
natureza, pela sucessão dos dias e das noites, pela passagem das estações. Os nômades e os fazendeiros costumavam medir – e ainda o fazem hoje – seu dia do amanhecer até o crepúsculo e os anos em termos de plantar e de colher, das
folhas que caem e do gelo derretendo nos lagos e rios.
O homem do campo
trabalhava em harmonia com os elementos, como um artesão, durante tanto tempo
quanto julgasse necessário. O tempo era visto como um processo natural de
mudanças e os homens não se preocupavam em medi-lo com exatidão. Por essa
razão, civilizações que eram altamente desenvolvidas sob outros aspectos
dispunham de meios bastante primitivos para medir o tempo: a ampulheta cheia
que escorria, o relógio de sol inútil num dia sombrio, a vela ou a lâmpada onde
o resto de óleo ou cera que permanecia sem queimar indicava as horas. Todos
esses dispositivos forneciam medidas aproximadas de tempo e tornavam-se muitas
vezes falhos pelas condições do clima ou pela inabilidade daqueles que os
manipulavam. Em nenhum lugar do mundo antigo ou da Idade Média havia mais do
que uma pequeníssima minoria de homens que se preocupassem realmente em medir o
tempo em termos de exatidão matemática.
O
homem ocidental civilizado, entretanto, vive num mundo que gira de acordo com
os símbolos mecânicos e matemáticos das horas marcadas pelo relógio. É ele que
vai determinar seus movimentos e dificultar suas ações. O relógio transformou o
tempo, transformando-o de um processo natural em uma mercadoria que pode ser
comprada, vendida e medida como um sabonete ou um punhado de passas de uvas. E,
pelo simples fato de que, se não houvesse um meio para marcar as horas com
exatidão, o capitalismo industrial nunca poderia ter se desenvolvido, nem teria
continuado a explorar os trabalhadores, o relógio representa um elemento de
ditadura mecânica na vida do homem
moderno, mais poderoso do que qualquer outro explorador isolado ou do que
qualquer outra máquina...
O
relógio ofereceu os meios através do qual o tempo – algo tão indefinível que
nenhuma filosofia conseguira ainda determinar sua natureza – passou a ser
medido concretamente em termos mais palpáveis de espaço, dado pela
circunstância do mostrador do relógio. O tempo, como duração, perdeu sua
importância e os homens começaram a falar em extensões de tempo como se
estivessem falando em metros de algodão. Assim o tempo, agora representado por símbolos matemáticos, passou a ser visto
como uma mercadoria que podia ser comprada e vendida como qualquer outra mercadoria...
Agora são os movimentos do relógio que vão determinar o ritmo
da vida do ser humano - os homens se tornaram escravos de uma ideia de tempo
que eles mesmos criaram e são dominados por esse temor tal como aconteceu com
Frankenstein. Numa sociedade livre e saudável, essa dominação do homem por
máquinas por ele mesmo construídas chega a ser ridícula, mais ridícula até do
que o domínio do homem pelo homem. A contagem do tempo deveria ser relegada à
sua verdadeira função, como uma forma
de referência e um meio para coordenar as atividades do ser humano, que voltaria a
ter uma visão mais equilibrada da vida, já não mais dominada pelos regulamentos
impostos pelo tempo e pela adoração ao relógio. A liberdade completa implica a
libertação da ditadura das abstrações,
tanto quanto a libertação do comando dos homens. *grifos nossos
George Woodcock em A Ditadura do Relógio
George Woodcock (1912/1995)
*
O Tempo
Tempo
de Tempo e não Tempo
Deus Cronos
Tempo é tempo vivido
não há tempo passado
quando a vivência não era
tempo tempo futuro
quando a vivência não será
geradores do tempo
de um instante concebido
encompridaram à eternidade
dizer que não há tempo
é tão absurdo
quanto dizer que ele há
o tempo se desfaz
no tempo que se liberta
pela ausência do temporalizador.